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sábado, 16 de julho de 2016

CASO MOSBY CAPÍTULO 4



CAPÍTULO 4

AMÉLIA

A sala parecia estar fria por dentro, a mesa metálica e a iluminação cegante davam essa impressão. Eu olhava a inquietação de Shirley através do espelho falso, enquanto esperava meu colega. Já fazia quase meia hora que havíamos deixado ela sentada naquela cadeira dura.
- Então – Tyler pareceu ter brotado do meu lado com uma pasta amarela, não muito cheia – Rafael Costa de Lima, brasileiro, chegou aqui em 2012. Imigrante legal. Sem antecedentes. Só uma multa de trânsito em maio de 2014. – Ele fechou a pasta e a segurou debaixo no braço – Eu não acho que ele tem alguma coisa a ver com o homicídio.
- Nem eu. Mas temos que interroga-lo. Eu estou mais preocupada com o tal de Newton. – desviei a atenção para a sala novamente – Conseguiu alguma coisa sobre ele?
- Não muito. Ele é daqui mesmo. Fariq Abdul Bassam, 33 anos.
- Hã.
- Vamos?
  Entramos na sala. Gelada como eu imaginava. Tyler jogou a pasta brutamente na mesa fazendo Shirley pular alguns centímetros sobre a cadeira. Sentamos em silêncio e a encaramos.
- Shirley – comecei – pode começar explicando porque diabos tem um esconderijo secreto por trás daquele quadro esquisito no seu cabaré.
- O que? Um esconderijo? Eu juro que não fazia ideia. O que tinha lá? Como eu já disse não costumo entrar naquela sala.
- Por que eu não acredito nisso? – Tyler murmurou, porém alto o suficiente para Shirley ouvir e surtar.
- É sério, eu juro. Já foi sorte o suficiente a sala estar aberta. Somente Newton entra lá, e ele não gosta que ninguém mais entre, então normalmente ele leva a chave com ele. Mas ele não está aqui na cidade, ele está viajando. Ah meu Deus, por favor, eu não fiz nada. Eu mal falava com Mosby. Não tenho motivos para matar nem ele nem ninguém.
- Viajando?
- É, eu não sei para onde. Não faço a menor ideia. Mas sei que ele não está na cidade.
- E a família dele?
- Bom, até onde eu sei, ele só tem uma tia, que mora em Abu Dhabi.
- Hum.
- Ok. Já temos o suficiente. – me levantei e Tyler me seguiu.
- Mas, espera, e eu? – Shirley se desesperou.
- Está liberada, Senhora Shirley. – falei.
- Diga para manterem o olho nela – Tyler sussurrou e saiu.
   

- Tem certeza sobre isso? – Tyler choramingou – E se descobrirem? Você sabe que nós seriamos demitidos na hora, né? O chefe já não gosta de mim, ele está doido para me mandar para o olho da rua, ah sim, eu aposto.
  Subíamos as escadas do luxuoso prédio em que o tal de Newton morava, seu apartamento ficava no décimo oitavo andar. Nós ainda estávamos no quinto e eu já estava morrendo.
- Relaxa – falei arfando – Como é que você consegue?... não tá... nem... suando.
- Eu não sou um sedentário como você. Já ouviu falar em um lugar chamado academia? – ele me olhou como se eu fosse uma criatura grotesca, e o pior que eu não podia culpa-lo, eu estava arfando demais, parecia uma cachoeira de suor e minha voz estava falha, comecei a me lembrar das aulas de educação física da época de escola, e como eu as odiava.
- HA HA – OK, eu parecia uma louca – Acho que me arrependi de não ter ido pelo elevador.
- Mas você disse “é melhor irmos pelas escadas, pode haver uma câmera no elevador”. – disse num tom de voz extremamente agudo.
- Eu sei o que disse – o interrompi – Mas agora isso não parece ter importância.
- Nãaaaooooo, imagina... Só os nossos empregos estão em jogo. Enfim, aguenta firme, só faltam quatro andares.
  Finalmente chegamos ao maldito andar e eu não conseguia mais sentir minhas próprias pernas. Entrei no corredor silenciosamente, havia duas portas, uma em cada extremidade.
- Apartamento 1801 – sussurrou Tyler.
- Será que tem alguém dentro do outro apartamento? – me perguntei. Tyler rapidamente cruzou o corredor e encostou o rosto delicadamente na porta. Seu rosto transpareceu o nervosismo e sua cabeça sinalizou positivamente.
  Peguei o kit de abrir fechaduras e comecei a tentar abrir aquela porta. As vozes do outro lado da porta vizinha começaram a se intensificar, serio que aquele povo havia decidido sair agora? Tyler respirava pesadamente por cima do meu ombro. Conseguíamos ouvir o barulho de chaves tintilando. Ouvi o estalo a tranca desbloqueando e girei a maçaneta desesperada. Estávamos dentro. 
  - Apartamento chique para um dono de um estabelecimento acabado feito aquele, não acha?
- Sim – de fato apartamento era muito extravagante, cheio de objetos decorativos grandiosos como uma mini cachoeira em um dos cantos da enorme sala e uma estátua de um cachorro branco gigante como o do Joey em Friends, tinha também uma televisão quase do tamanho a parede e quadros coloridos da Marilyn Monroe e do David Bowie por toda sala de jantar. – Algo não se encaixa.
- Esse local é enorme. Melhor começarmos a procurar.
  Vasculhamos o apartamento inteiro de ponta a ponta e não encontramos nada suspeito, e acredite havia umas coisas bem estranhas naquele lugar.
- Olha o que eu achei – Tyler saiu gargalhando com uma máscara preta de látex na cara, ela tinha spikes dourados espalhados.
- IIIUUU – encostei em uma parte suja e rapidamente limpei na manga do meu parceiro - ela é grudenta. Cara, guarda isso. Esse Newton tem cara de ter uns fetiches bem... peculiares – lembrei de uma sessão um tanto incomum em seu closet que eu desejava não ter visto.
  De repente ouvimos uma voz alta vindo do corredor.
- Como assim já é a terceira vez eu ela falta? Ela tem que fazer o checkup todo mês.
  Olhamos espantados um para o outro e começamos a correr a procura de um canto para nos escondermos.
  - Amélia – Tyler sussurrou sinalizando para que eu entrasse por uma porta no corredor, ela parecia estar escondida no painel que revestia as paredes dos corredores.
  A pessoa começou a abrir tentar abrir a porta, corri para dentro do que parecia ser um closet.
- Ela está sob supervisão, não é? Quem? Saraiva? E onde essa criatura está? Olha amanhã a gente resolve isso melhor, certo? Não me incomode mais por hoje. – Newton suspirou alto e pulou no sofá. A televisão foi ligada e passava o que parecia ser um jogo de basquete.
- Será que é o Newton? Check up? Do quê ele está falando? E quem é esse Saraiva? – sussurrei para Tyler que tirou seu precioso bloquinho e começou a fazer anotações. Ele ainda vestia aquela máscara esquisita, o que me causou arrepios, eu estava presa com ele em um local pequeno e escuro, somente iluminado pela luz fraca da tela do meu celular que estava bem próximo de descarregar. Era assustador.
- Você procurou por esse lugar? – perguntei.
- Não, nem havia notado essa porta, ela está muito camuflada.
- Hum, talvez nosso cara esteja escondendo algo aqui – “Finalmente”, pensei. Comecei a tatear pelas paredes de madeira e Tyler estava revistando uns casacos pesados que Newton mantinha lá.  
- Psiu – passei mão novamente por aquele local. Sim, era um pouco mais elevado, rapidamente encontrei uma irregularidade na superfície e sacrifiquei minhas unhas na tarefa de abrir aquilo. O pedaço de madeira caiu em minhas mãos revelando o fundo falso. Enfiei minha mão lá dentro com medo do que pudesse encontrar, e tremi quando senti algo gelado e sólido. Puxei o que parecia ser um medalhão. Ele era em formato de olho e possuía um rubi em seu centro, atrás tinha uns números gravados.
- 07425607.
- O que isso significa?


  Já fazia horas que estávamos ali sentados naquele chão frio, meu celular havia finalmente descarregado e nós não sabíamos que horas eram, a última vez que olhei tinha dado 21:30. Newton havia passado para o seu quarto fazia apenas vinte minutos.
  Eu não conseguia parar de olhar apara aquele olho e os números, o que seriam? Tyler já havia feito uma lista de todas as coisas possíveis. Embora nós nem tivéssemos certeza de que aquilo tinha alguma importância ou não. Poderia não significar nada. Poderia simplesmente ser só um colar qualquer. No entanto as circunstâncias diziam o contrário.
  Ouvimos roncos alto vindos do fundo do apartamento.
  - Vamos – me levantei. Balancei o ombro do Tyler quando percebi que ele havia cochilado – Ei, Brandon, acorda.
  Saímos cuidadosamente do closet e em seguida do apartamento. Descemos as escadas em silêncio.           


   Apesar do barulho intenso no andar de cima, a única coisa que se podia ouvir naquela sala fria e escura era a sua respiração pesada. Todas as oito telas na parede a sua frente mostravam as mesmas duas pessoas em diferentes ângulos. O som dos passos se aproximando não lhe tirara o foco nem por um segundo, a sede de vingança tinha lhe despertado um lado que nunca imaginara ter, era como estivesse se apaixonando. Se apaixonando pela sensação de poder.
  - Eles caíram, Mestre? – a voz rouca de Morgan preencheu o silêncio que pairava naquela sala por horas.
  - Ah, sim. Tudo como planejado. – sorriu.
         


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segunda-feira, 27 de junho de 2016

CASO MOSBY CAPÍTULO 3




CAPÍTULO 3


Parker e Brandon entraram no estabelecimento ao lado. O local era escuro, repleto de luzes néon e tinha uma larga passarela cruzando o espaço central, que possuía três postes de pole dance. Para a surpresa de Amélia, o cabaré era bem limpo e organizado.
   Um choramingo chamou a atenção dos dois. Um travesti grande e gordo sentava em uma mesa dos cantos, rodeada por dois policiais que tentavam a acalmar. 
   - Senhora Shirley? - Tyler se aproximou. - Eu sou o Detetive Brandon e essa é a Detetive Parker, e nos gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas sobre o ocorrido.
- Sim, sim, claro - ela limpou os olhos com um lencinho vermelho.
- Oficial Jackson, Oficial Toni, se importam de nos dá uma licencinha?   
- Você poderia nos contar como encontrou o senhor Mosby? 
- Sim - ela afastou os longos cachos loiros de sua peruca que lembrava a Amélia uma daquelas perucas brancas que juízes usavam. - Eu estava trabalhando, supervisionando o movimento de hoje de manhã, e fui fazer uma pausa de cinco minutos, fumar um cigarro, como eu sempre faço. Porém, quando eu cheguei naquele beco, ele estava lá… - ela tinha um olhar distante em seu rosto exageradamente maquiado.  – Seus olhos estavam abertos e esbugalhados, e seu corpo imóvel. Eu nunca estive tão perto de um cadáver na minha vida, então foi bem chocante para mim, ainda mais por se tratar de um conhecido.
- Um conhecido? – Tyler quase pulou da cadeira. Amélia já havia notado que o seu mais novo colega de trabalho tendia a ficar um pouco animado demais em relação a absolutamente tudo.
- Sim, ele vem… Quer dizer, vinha, todas as quintas a noite, até achei estranho ele aparecer por essa região da segunda para a terça. Mas como eu disse, eu estou supervisionando o turno da manhã, eu e minha sócia, Newton, alternamos turnos, quem estava aqui ontem a noite era ela.  
 - Newton… - Amélia decorou o nome, enquanto Tyler como sempre escrevia em seu bloquinho.
- Ele era cliente de Newton, os dois sempre conversavam quando ele chegava, e iam para uma das salinhas particulares. 
- Cliente? Como assim? Eu pensei que aqui fosse só uma casa de show.
- Ah, sim, e é, eu quero dizer, aqui também fazemos shows privados. Embora Newton não se apresente mais já faz anos, ele abria uma exceção para o advogado maravilha. 
- Nos conte um pouco mais sobre o seu sócio, Newton – Tyler mantinha seus grandes olhos azuis bem abertos encarando Shirley Bitencú como se pudesse ver dentro da sua alma, ou pelo menos ele queria que ela pensasse isso. Já Amélia suspeitava que ele tivesse ingerido muito açúcar. 
- Ah não, Newton não o matou, não pensem assim!
 - Nós não falamos que ele o matou - disse Amélia calma - Só precisamos de informações e claro, falar com ele.
- Minha parceira pode ser uma víbora de vez enquanto, mas ela nunca mataria alguém! Eu a conheço desde que sai do armário, logo depois do escândalo que como professor de matemática, que eu causei em uma escola particular lá na América do Sul. Há muito tempo atrás, mas não vamos entrar nesse assunto. Como eu estava desempregada me deixei experimentar novos ramos, foi por aí que conheci Newton, nos tornamos amigas e um dia a bicha apareceu com uma ideia de vir para cá e abrir nosso próprio cabaré. Dizia que ia ser um sucesso – Shirley olhou com desgosto a sua volta - e que os Xeiques daqui gostavam muito dessas coisas de shows, sabe. Ele cuida da parte financeira desde sempre. Disse que temos um financiador, mas faz três anos que montamos essa bagaça e nunca conheci o bofe.
  - Hmm, um financiador secreto… - Tyler pensou alto - Você acha que poderia ser o Mosby?
- Acho difícil, o nosso financiador nunca teve nenhum lucro, nós quase nunca temos lucro, ele era só alguém que pagava e não recebia nada. E pelo o que escutei por aí, Mosby nunca fazia nada que não envolvesse dinheiro sendo depositado em sua conta. Sinceramente, acho que era o próprio Newton, talvez um dinheiro que ele tem guardado. Ela sempre foi uma rainha do drama, sabe? Acho que inventou um tal financiador secreto para soar legal. Até porque, quem é o otário que continuaria financiando um negócio sem ao menos lucrar?
  - Hum - Amélia formava uma teoria em sua mente - Você disse que ele sempre vinha nas quintas. E por quê? Algum motivo especial?
  - Ah, sim. Nas quintas geralmente temos uma apresentação especial. - a travesti com axilas cabeludas pegou um panfleto todo amassado no bolso de trás de sua minissaia jeans super justa.
  Ela jogou para Amélia que desamassou o papel e começou a analisá-lo. O panfleto trazia a frase "Suko dos Pole Dance, vai fazer você querer ser o poste", locais onde ele se apresentava todos os dias da semana e os horários, também o seu número de contato e e-mail, suquinhodemorango@gmail.com, e no final a frase "A sensualidade está nos gestos". 
  Shirley Bitencú nos passou o endereço de Newton e seu contato logo sem seguida.
- Essa sala privada que eles costumavam conversar? Era uma sala fixa? A gente pode ir dar uma olhada?
- Ah sim, eu acho. Somente Newton usa aquela sala, mas acho que ele não vá se importar.
  Amélia e Tyler seguiram Shirley até um corredor escuro e úmido, com pedaços de espelhos quebrados decorando as paredes, formando uma imagem distorcida daqueles que por lá passavam. Era um ambiente um tanto perturbador.  Ao chegarem no final do corredor Shirley os guiou a direita onda havia uma escadaria estreita. Os dois se entreolharam e subiram as escadas que levava até uma porta branca.
- Então, é aqui – disse a senhora Bitencú, que abriu a porta para que os dois detetives entrassem – Ninguém vem muito aqui. É meio assustador né? – Tyler podia concordar plenamente a travesti de dois metros de altura à sua frente, a sala parecia ter saído de um filme dos anos 40. Nela havia um divã vermelho sangue, uma escrivaninha de uma madeira bem escura e uma pintura a óleo de uma mulher bem elegante que parecia encarar cada passo que você desse.
- É bem... vintage – comentou Amélia.
- Okay. Eu estarei lá embaixo caso precisem de alguma coisa.
  Tyler Brandon começou a vasculhar a sala cuidadosamente, enquanto Amélia encarava a mulher da pintura de volta.
- Que pintura estranha, não é? – sentiu um rápido calafrio atravessar seu corpo quando se aproximou do quadro. A detetive colocou a mão sobre a tela para sentir sua textura – MAS QUE PORR...?!
- O QUE FOI, LOUCA? – Detetive Tyler saltou com o susto.
  A tela do quadro havia cedido e revelado o buraco que escondia. Amélia enfiou a mão no breu do buraco da parede, e voltou com um pequeno pedaço de papel amassado entre seus dedos.
“ALCA PLAZA HOTEL, 3208”.  






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sexta-feira, 10 de junho de 2016

CASO MOSBY - CAPÍTULO 2 - AMÉLIA




CAPÍTULO 2


AMÉLIA


 A movimentação no beco havia começado há mais ou menos meia hora, e a mídia já estava lá, “esse bando de babacas não podem ouvir de um corpo morto e já estão encima dele pra disseca-lo”, pensou Amélia chateada. A sua relação com jornalistas nunca havia sido uma das melhores, eles estavam sempre lá para atrapalha-la na resolução de seus casos, cobrando impacientemente pelas respostas como se a própria detetive não estivesse nem tentando resolver o crime.
  Como se não bastasse a cara de poucos amigos da detetive, um repórter correu rapidamente ao seu encontro, e assim que abriu a boca um enxame de perguntas saíram.
  - Qual o nome da vítima? E a sua idade? Qual foi a causa da morte? Quem o matou? Quais o seus palpites? E da sua equipe?... – o rapazinho continuou a fazer perguntas, mas Parker já não dava mais ouvidos. Amélia procurou o policial mais próximo, que no caso era o oficial Roger, e sinalizou que estava sendo incomodada.
  - Deixe me trabalhar, por gentileza – falou séria e calma.
  - Rapaz, por favor, saia dessa área imediatamente – falou Roger empurrando o repórter para longe e abrindo caminho para a detetive, que foi até a faixa amarela de não ultrapasse que demarcava o local onde o corpo estava. Ao passa por baixo da faixa que fechava o beco, o seu novo parceiro de trabalho, detetive Tyler Brandon chegou rapidamente.
  - Desculpe o atraso – disse Amélia meio sem jeito – o trânsito estava um verdadeiro caos.
  Tyler encarou a detetive com seus grandes olhos azuis como se não tivesse engolido aquela desculpinha.    
  - Aham tá... – murmurou baixinho – Você é sempre assim?    
  - Quê? Não, de maneira alguma – disse surpresa com a pergunta. Só fazia dois dias que eles se conheciam e esse seria o primeiro caso juntos como parceiros – Eu não sou de me atrasar, normalmente. Enfim, cadê o meu cadáver?
  Tyler a acompanhou puxando seu bloquinho de anotações do blazer e abrindo a caneta com um estalo. Amélia já havia notado que ele tinha uma certa obsessão por aquele bloquinho. Ao chegar perto do corpo estirado no chão Tyler começou a falar.
  - De acordo com a carteira do cara, ele se chama Edgar Mosby, tem alguns dados pessoais também, números e bláh bláh bláh – disse empolgado, tirando um saquinho com alguns pertences do morto do bolso e entregando a detetive – Enfim, você pode não saber já que é nova na cidade, mas, não se trata de uma pessoa qualquer, e sim de  alguém muito famoso pelos arredores.
  - O que você quer dizer é que o sujeito era um rodado? – Amélia retirou um par de luvas do bolso e abriu o saquinho plástico para examina-lo.
 - Pode se dizer que sim – Tyler anotou algumas coisas no bloquinho - Ele era um advogado renomado e estava sempre envolvido em escândalos. E o cara era bom.
 - Identificação, Edgar Amadeus Mosby, carteira... Hmm... Recheada, relógio... Rolex, e um celular – olhou para Tyler e mostrando o celular – vamos dar um olhada nisso aqui com muito carinho, okay?
 - Sim, senhora.
   Parker devolveu o saco para seu parceiro e abaixou-se perto do corpo. Tratava-se de um homem por volta de 40 seus anos, cabelos grisalhos, terno e sapatos de marca, muito elegante e bonito. Não era a toa que o cara era rodado. Seu rosto estava em um coloração suave de azul e roxo. Amélia já podia dizer como ele havia morrido.
  - E quem foi que descobriu o nosso amigo aqui? – perguntou olhando para Tyler, que virou algumas páginas de seu bloco de notas rapidamente.
  - Senhora Shirley Bitencú, dona do cabaré ao lado.
  - E onde ela está? Vou querer dar uma palavrinha com ela.
  - Lá dentro, se recuperando do susto. Alguns de nossos policiais estão a acompanhando.
  - Aham...
  A detetive se levantou e colocou as mão na cintura, botando a mente para trabalhar.
  - Olá – disse uma voz rouca no pé do ouvido da detetive, que não reagiu muito bem a surpresa.
 - AAAAIIIIIIIAAA – aplicando um antigo golpe de autodefesa que consistia simplesmente em chutar as bolas do cara.
  Um homem que aparentava ter trinta e pouco se contorcia no chão gemendo de dor.
   - Quem é você?
  Tyler começou a gargalhar alto e não muito tempo depois já estava sem conseguir respirar direito. O homem estava pálido e com os olhos marejados. A detetive ficou de braços cruzados esperando o cara se recuperar.
  Ainda com cara de sofrimento, o homem se levantou ajeitando o terno cinza que vestia. Ele era alto, de cabelos castanhos, musculoso e muito elegante.
  - Sou o Doutor Kauânus Carlos – se apresentou estendendo a mão – o legista escolhido para examinar o defunto.
  - Bom saber – ela apertou a mão do médico, que fez um sorrisinho malandro – Sou a detetive Amélia Parker, responsável por esse caso. E devo lhe dizer que sou muito rígida em relação ao trabalho, então precisarei dos resultados dos exames o mais rápido possível.
  - Mas é claro, com certeza, pode contar comigo – falou rapidamente – E se você quiser, quando eu tiver a autopsia do corpo, eu posso passar na sua casa à noite – disse calmamente, dando uma piscadela – Sabe, para você não ter trabalho de ir buscar os papéis. 
    Parker ficou sem resposta por um momento, espantada com tamanha audácia. Afinal, eles tinha acabado de se conhecer.
    - Hmm, Kauânus, certo? - ela disse se aproximando - Escute bem, a relação aqui é somente profissional. Então não venha com esses joguinhos para cima de mim, porque não rola. 
    O doutor ficou sem jeito com a resposta tão direta e começou a abrir e fechar a pulseira do relógio e mecher a boca de maneira esquisita como fazia quando estava nervoso. Ele não era acostumado com o tão doloroso não, normalmente seu charme fisgava as mulheres com certa eficiência, no mínimo uma ceninha básica de "Sou difícil".
    - Sendo assim - ele endireitou a postura - Irei ver o meu querido morto. 
    Ao se aproximar do corpo um misto de estranhas expressões passou pela face de Kauânus Carlos. A detetive podia jurar que uma delas era de surpresa e tensão. Se ele fosse alguém sem experiência na área, Parker não teria suspeitado, mas aquilo não era típico de um legista que sempre meche com corpos, e de acordo com o Tyler, que possui anos de prática ramo.
  - Você o conhecia? - perguntou a detetive.
  O doutor pareceu estranhar a pergunta, mas Amélia, que sempre fora muito observadora e com orgulho, percebeu os poucos segundos de hesitação que foram seguidos da resposta.
  - Não, não, não. Eu não conheço esse homem. Mas sei quem ele é. Advogado famosíssimo. Um verdadeiro tubarão. 
  Dr. Kauânus Carlos o examinou de forma rápida.
  - Pela coloração de seu rosto e as veias saltando eu diria que ele pode ter morrido de asfixia, mas se marcas de estrangulamento visíveis. 
  - Talvez algum gás tóxico? 
  - Palpite considerável. Eu acredito que sim. Mas terei que fazer alguns testes no laboratório para saber com precisão.
  - Certo. 

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quarta-feira, 25 de maio de 2016

CASO MOSBY - CAPÍTULO 1





CAPÍTULO 1


 MOSBY

  
  Com adrenalina a mil, Mosby correu o mais longe que pôde assim que viu um vulto passar rapidamente bem na frente de seus olhos, tão rápido que foi impossível reconhecer quem ou o que era. Ultimamente, ele havia notado algumas irregularidades ao seu redor, tinha a impressão que alguém o vigiava. A cada passo que dava sentia repentinos par de olhos o observando, seguindo seu caminho, escondendo-se em sua sombra. Fazia umas três ou quatro semanas que ele sentia aquele incomodo sobre seus ombros, não podendo fazer um ato rotineiro, por mais simples que fosse, sem ter a máxima cautela, checando todos os cômodos, janelas e trancas duas vezes sempre que se encontrava sozinho em seu grande e luxuoso apartamento em Dubai. Estava aos pouco se tornando uma obsessão. E agora ele havia visto a prova de que estava certo o tempo todo.
   Mosby entrou em uma ruazinha escura e estreita, ou pelo menos ele pensava que era uma, quando virou seu rosto, percebeu que na verdade se tratava de um beco sem saída. “Fodeo”, pensou. Seu coração batia tão forte que parecia que iria sair pela sua boca. Mosby fechou os olhos tentando se acalmar, respirando fundo e tentando bolar um plano rápido, como sempre fazia. Entretanto, não era capaz. Ele já havia passado por situações de estresse e perseguição como essa, mas havia algo diferente naquele momento, havia algo diferente com ele. Não havia a vontade de continuar, somente culpa pelos seus atos mal pensados. 
  Agora só se podia ouvir o barulho a chuva se intensificando mais e mais, caindo sobre seu rosto angustiado. À medida que o tempo passava Mosby ficava ainda mais nervoso. Será que aquilo que ele mais temia estava se tornando realidade? Se sim, isso tudo seria graças a sua decisão do mês anterior. “Por que eu decidi pular fora?! Demônios, demônios! Eu sabia que era tudo uma enganação, tudo uma grande peça!”, ele já estava desesperado. Estava sendo caçado, sendo eliminado da equação.
  Sua respiração pesada parou assim que começou a ouvir o barulho de passos lentos e frios nas poças d’água que se formavam pela chuva.
  - Tão rico, poderoso, manipulador... – Mosby rapidamente conheceu aquela voz e engoliu o seco – Tão concentrado em seus esquemas, montando sua casa de cartas, uma por uma, que acabou sendo esmagado por ela.
  Rindo da situação do senhor encurralado, o vulto com um capuz preto sobre a cabeça, que formava uma sombra que cobria o seu rosto, retirou rapidamente a arma do crime.
  - Então que dizer que o famoso Edgar Mosby vai morrer assim? – fez a expressão de tristeza mais falsa já vista na face da Terra – Em um beco imundo, entre uma locadora de DVDs fechada há anos e um cabaré mal visitado.
  O vulto riu daquela cena, chegava a ser irônica se tratando de uma figura tão importante como aquele homem.
  Com movimentos ligeiros e ágeis, o vulto pressionou o corpo de Mosby contra a parede e retirou o capuz para que olhasse bem no fundo de seus olhos enquanto o matasse. E assim fez. O corpo de Edgar Mosby caiu sem vida no asfalto irregular.         

   
   A chuva fraca começava a cair lentamente sobre sua face, e nada podia se ouvir a não ser pela melodia que as gotas d'água produziam ao tocar no chão e é claro pela música abafada vinda do cabaré ao lado.
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